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BRASIL' 95
Fernando Collor "O
menor caminho entre dois pontos é sempre uma linha de menor
resistência, que rarissimamente é uma reta." (Lao-Tse)
Desde
1990, o projeto brasileiro de desenvolvimento está calcado
na buscada modernidade, pela via da conjunção de três
fatores: democracia, prosperidade e eqüidade social.
0
primeiro deles, alcançado logo naquele ano, com a escolha
pelo voto popular do primeiro Presidente da República após
quase 30 anos de abstinência eleitoral, foi reforçado
em 1994, com uma nova eleição para a chefia doExecutivo.
0 processo democrático se consolida, sem sobressaltos.
0
que desejam aqueles que detêm o poder de influir na decisão
de pessoas, em que mercados investir é, em primeiro lugar,
estabilidade política. Depois, estabilidade econômica,
num Estado o menos possível interventor. Anseiam por regras
estáveis para o funcionamento da economia que lhes permita
vislumbrar um horizonte e planejar seus investimentos.
Temos
agora que atender ao segundo fator, o da prosperidade. Vários
passos já foram dados neste sentido, com a abertura comercial,
a modernização do setor produtivo, as prlvatizações
e o acordo da dívida externa, visando a estabilidade econômica
com crescimento sustentado. Em consequência, uma maior geração
de renda e sua melhor distribuição, iniciando-se então
o cumprimento da eqüidade social, o terceiro fator, objeto
final de todo este esforço.
A
fase das emendas constitucionais ao capitulo da ordem econômlca
(conceito de empresa nacional, distribuição de gás,
navegação de cabotagem, fim da reserva de mercado
das telecomunicações e do petróleo) ainda não
está encerrada porque elas necessitam, para se tornarem práticas,
de uma outra legislação, complementar ou ordinária,
que as regule. E isto demanda tempo. Na Constituição
aprovada em 1988, por exemplo, permaneceram intactos cerca de 90%
dos dispositivos que previam leis futuras que os regulamentassem.
Sem
mais retardo, se necessita a adoção de algumas outras
providências, extremamente significativas e difíceis
de serem tomadas pelas enormes resistências que se formam.
São estruturalmente importantes porque visam equilibrar as
contas públicas, sem o que não se chegará a
lugar nenhum. São as reformas fiscal, tributária e
previdenciária. Não se esquecendo, é claro,
da reforma política, por ser a mãe de todas as outras.
Isto
faz com que 1995 seja um ano de muito trabalho a executar se, além
da inadiável desindexação total da economia,
somarmos a reforma fiscal, com a revisão da atual estrutura
do gasto público, engessada pelas vinculações
constitucionais, que correspondem a 65% das receitas de impostos
e contribuições; pelas despesas com pessoal ativo
e inativo - perto de 24%; juros reais da dívida pública
- este ano, cerca de 10 bilhões de dólares, talvez
superando o que se gastará em Educação e Saúde.
Ao lado destes atendimentos, aumentar a receita., conter a folha
salarial e o custeio, e reduzir a dívida interna e as despesas
financeiras decorrentes.
A
reforma tributária é também urgente, sobretudo
porque qualquer alteração neste particular só
entra em vigor no ano seguinte à sua aprovação.
Há que se reduzir a excessiva carga de tributos incidente
sobre algumas atividades, diminuindo-a e redistribuindo-a, facilitando
o seu pagamento, agregando parcelas do setor informal da economia,
aumentando assim a base de contribuição e diminuindo
a evasão e a sonegação, dentro do conceito
de que, se todos pagam, todos pagm menos. É indispensável
redefinir o repasse constitucional para Estados e Municipios, bem
como os seus encargos. Na década de 60, cerca de 70% do bolo
tributário nacional permanecia com a União. Na década
de 90, não chega a 50%, sendo que os encargos da União
permaneceram quase os mesmos, portanto elevados, de quarenta anos
atrás.
A
reforma da prevldência é indispensável para
equilibrá-la financeiramente, melhorar o seu desempenho na
prestação de serviços e salvá-la da
bancarrota. Para isto tem-se que buscar novas fontes para financiá-la,
via Previdência complementar prlvada, reestruturando as regras
de aposentadoria. 0 sistema previdenciário está em
déficit: há apenas 2 trabalhadores ativos para cada
beneficiário ou inativo. Em 1970, por exemplo, esta relação
era de 4 para 1. O número de beneficiários
rurais pulou de 2 milhões em 1980 para 6 milhões em
1994. 65% dos beneficiários do sistema se aposentaram com
menos de 54 anos de idade. Cerca de 40% das pessoas que participam
da Previdência, nunca contribuiram para ela. Fora as graves
distorções de aposentadorias especlais: enquanto a
média é de 150 dólares, nos Legislativos este
valor chega a 3.600 e no Ministério Público e Judiciário
a 3,700 dólares. Isto acarreta um déficit , somente
em 1995, de quatro milhões de dólares.
E,
finalmente, a reforma politica, eleitoral e partidirária,
que promoverá uma radical transformação nas
relações políticas do país, dispensável
para que a modernidade alcance este setor. Fidelidade partidária,
voto distrital misto, não obrigatoriedade do voto, coincidência
de eleições, exigência doutrinária para
fprmação de partidos, são alguns dos avanços
que necessitam ser introduzidos. Isto sem falar numa rediscussão
sobre a mudança do slstema de governo, proposta não
aceita pelo plebiscito realizado em 1993.
Mas,
esta já é um pouco mais complicada. Se, em 1995, alcançarmos
as 3 primeiras, o Brasil já terá pavimentado o caminho
que o levará ao primeiro mundo.
*BRASIL:
E AS REFORMAS ?
Fernando
Collor de Mello
Inserir-se no novo quadro geopolítico, associar-se às
grandes correntes do comércio internacional e posicionar-se
como parceiro sério e cooperativo, foi o gigantesco passo
dado pelo Brasil, em 1990, liberando o país dos grilhões
de um processo de desenvolvimento autárquico, baseado na
substituição de importações e gerador
de setores pouco competitivos e oligopolizados.
Dentro
deste contexto, a integração econômica do Cone
Sul foi um outro marco: além do fortalecimento econômico
de nosso sub-continente, criou-se um amplo espaço geográfico
em que a paz e a convivência pacífica entre os parceiros
está assegurada. Hoje, o Mercosul representa um mercado de
200 milhões de pessoas, PIB de 1 trilhão de dólares
e um intercâmbio comercial de mais de 11 bilhões de
dólares.
Estas
iniciativas estavam referendadas pela Nação brasileira,
reencontrada com sua liberdade política pela eleição
de seu primeiro presidente após 29 anos de abstinência
eleitoral, e com sua opção pela liberdade econômica.
Assim, todos perceberam ser fundamental vencer num ambiente internacional
cada vez mais globalizado, em que o grande desafio que se apresenta
é o da competência e do conbecimento, do trabalho e
da inovação tecnológica.
Agora,
para manter e aperfeiçoar todas essas enormes conquistas,
é fundamental que se aprofundem as reformas estruturais e
se alivie a escorchante política monetária em vigor.
Percebe-se um esforço desesperado do governo brasileiro para
garantir o plano real. Um dos integrantes da administração
afirmou que "vale tudo para segurar a inflação:
de tiro pelas costas até chute embaixo do umbigo". Acontece
que manter um plano economico somente na base de políticas
monetária e cambial extremamente rígidas, é
exigir demais da Nação, correndo-se o risco de quebrar
o país para salvar o plano.
Daí
a urgência da reforma fiscal, com a revisão da atual
estrutura do gasto público, engessada pelas vinculações
constitucionais que correspondem a 65% das receitas de impostos
e contribuições; pelas despesas com pessoal ativo
e inativo - perto de 24%; pelos juros reais da dívida pública
- este ano, cerca de 10 bilhões de dólares.
E,
é claro, aumentar a receita. Aí verifica-se
o quanto é inadiável a segunda reforma a tributária,
reduzindo-se a excessiva carga de tributos incidentes sobre a produção,
facilitando o seu pagamento, agregando com isto parcelas do setor
informal da economia, aumentando a base de contribuição
e diminuindo a evasão e a sonegação, dentro
do conceito de se todos pagam, todos pagam menos. É indispensável
redefinir o repasse constitucional para Estados e Municípios,
bem como os seus encargos. Na década de 60, cerca de 70%
do bolo tributário nacional permanecia com a União.
Na década de 90, este percentual não chega a 50%,
sendo que os eacargos da União permaneceram quase os mesmos,
portanto elevados, de quarenta anos atrás.
A
terceira reforms é a da previdência, que necessita
sair da atual bancarrota, encontrando novas fontes para financiá-la,
que não sejam inflacionárias. Seja pela previdência
complementar privada e/ou pela restruturação das regras
de aposentadoria. 0 sistema hoje, está falido: há
apenas 2 trabalhadores ativos para cada beneficiário ou inativo.
Em 1970, por exemplo, esta relação era de 4 para 1.
0 número de beneficiários rurais pulou de 2 milhões,
em 1980 para 6 milhões em 1994. 65% dos beneficiários
do sistema se aposentaram com menos de 54 anos de idade. Cerca de
40% das pessoas que participam da previdência, nunca contribuiram
para ela. Fora as graves distorções de aposentadorias
especiais: enquanto a média é de 150 dólares,
nos Legislativos este valor chega a 3.600 e no Ministério
Público e Judiciário a 3.700 dólares. Isto
acarretou um rombo, somente em 1995, de quatro billhões de
dólares.
Resta,
afinal, um grande desafio: comprovar que somente a liberdade econômica
conjugada à liberdade política, pode oferecer condições
de vida digna à população mais carente e garantir-lhe
o acesso à educação, à saúde,
ao trabalho, à vida. Embora o crescimento econômico
sustentado seja condição necessária para o
combate à pobreza, não é suficiente. Se os
pobres não dispuserem de um mínimo de meios para participar
deste processo, a desigualdade aumentará, correndo-se então
o risco de ver-se ruir todas as conquistas baseadas nos ideais de
liberdade política e liberdade econômica.
Para
evitar o que seria um desastre, necessita o governo brasileiro imprimir
comando, mostrar vontade e determinação políticas
e coragem cívica. Já !
ENCONTRO
COM GABO
Fernando
Collor "A
lembrança é uma forma de reencontro".
Estava
eu em Cartagena de Índias, cidade histórica fundada
em 1533 e desde então um dos principais portos da Colômbia,
no mar Caribe, para participar, com vários presidentes de
países sul-americanos, da V reunião de Cúpula
do Grupo do Rio.
Esses
encontros, pelo seu formato institucional, eram marcados pela informalidade
e pelos bons resultados que traziam ao concerto político
das nações envolvidas. Discutia-se o suficlente para
a tomada de importantes decisões, avançando-se sempre
de forma cautelosa e segura.
Cheguei
num sábado à noite; fazia muito calor, amainado pela
constante brisa que soprava da costa. No domingo pela manhã,
ainda no meu quarto, recebo, junto com o café, os jornais
colombianos. Um deles traz suplemento com um conto inédito
de Gabo "Maria dos Prazeres". Interessante que sua personagem
é brasileira de origem - lançado alguns anos depois
como parte integrante do seu livro "Doze Contos Peregrinos".
Li-o e pensei: "que boa coincidência!" Neste encontro
anual, além da satisfação de rever meus colegas-presidentes,
eu teria uma conversa com um dos gigantes da literatura universal:
Gabriel Garcia Marquez, o Gabo.
Já
sabia que ele também estaria em Cartagena, atendendo convite
feito pelo presidente-anfitrião para participar de uma das
cerimônias finais do conclave. Saí, então do
Brasil, com tudo marcado para a tarde do dia 2 de dezembro de 1991,
no hotel onde me hospedara.
Às
17.30 hs daquela segunda-feira já me encontrava pronto, aguardando
a sua chegada a qualquer momento. Esperava ter com ele pelo menos
uma hora de bate-papo, até o momento de um jantar solene
a que deveria estar presente naquela noite.
Seis
horas, nada; seis e trinta, nada. Pedi então que tentassem
se comunicar com Gabo, para saber se acontecera algo. Telefonaram
para o número em que se dizia poderia encontrá-lo
e nem sinal do autor de "O General Em Seu Labirinto".
A única informação é de que saíra
com um amigo já há algum tempo. E só.
Às
quinze para as sete, saí para o jantar. Amolado, com o que
considerei uma descortesia, mas alimentando esperanças de
poder vê-lo na cerimônia daquela noite. Ele lá
não estava. Perguntei ao Presidente Gavíria, que o
convidara para aquele instante e como resposta o máximo que
obtive fol a mesma: não sabia.
-
Mas não se importe; ele é assim mesmo! completou o
mandatário colombiano.
Na
volta ao hotel, conjecturava o que poderia ter acontecido. Na minha
cabeca não passava que o famoso Gabriel Garcia Marquez, prêmlo
Nobel de 1982 com "Cem Anos de Solidão", fosse
capaz de uma desconsideração como aquela.
Fui
dormir e, no dia seguinte cedo, já estava de pé para
os meus exercícios físicos, preparando-me para um
dia puxado de reuniões, começando com o diretor-gerente
do FMI, Michel Camdessus e prosseguindo com sessões plenárias
e encontros bilaterais com outros Chefes de Estado.
Saio
do banho e toca o telefone do quarto. Eu atendo:
-
Alô?
-
É o Collor de Mello? (Devia ser alguém de língua
hispânica, com alguma intimidade, pensei, porque não
utilizou o protocolar Presidente).
-
Sim, sou eu mesmo.
-
Estou no hall do hotel há uma meia hora, com jornalistas
me chateando e ninguém aqui para me dizer o que devo fazer
...
Perguntel
ao meu interlocutor:
-
Por favor, com quem estou falando?
Com
Gabriel Garcia Marquez. Estou lhe esperando para o nosso encontro.
Mas,
estava marcado para ontem, disse eu.
-
Ontem... ontem ... Repetia como se buscasse na memória a
confirmação da data. - Tem certeza?
-
Claro! Inclusive tenho um comunicado de seu agente confirmando para
ontem, às 17.30 horas, a nossa conversa.
Ele,
que simplesmente havia chegado com 14 horas de atraso, pareceu cair
em si, balbuciou uma desculpa que imediatamente aceitei e pediu-me
que o deixasse subir e ficar num local onde não sofresse
tanto assédio, motivo maior de sua lrritação.
Determinei
ao ceremonial que prontamente o acomodasse numa das salas privativas
do hotel, vesti-me rapidamente e desci para cumprir minha agenda.
Depois de vencido meu primeiro compromisso do dia, fui ao encontro
de Gabo.
A
prosa, divertida e politicamente engajada, foi um dos melhores e
mais gratificantes momentos que vivenciei na minha passagem pela
vida pública.
PRUDÊNCIA
OU OMISSÃO?
Fernando
Collor
Decisão da justiça não se discute, se cumpre!
Numa
democracia, o acatamento a esta determinação serve
de base de sustentação ao estado de Direito, sem o
que não poderá haver segurança, harmonia, confiança
e coesão nas relações sociais de uma Nação.
Tome-se
a decisão da Suprema Corte chilena, no julgamento de um oficial-general.
Ao se colocar dúvida sobre o cumprimento do veredicto, se
coloca em xeque o pressuposto do regime e se vislumbra sua fragilidade.
Afinal, o Executivo que não faz cumprlr as determinações
do judiciário pode ser considerado de exceção:
dá seguimento ou não às decisões judiciais
na medida de sua conveniência.
E
isto pode ser encarado como prenúncio de ruptura institutional.
Se a sentença não for cumprida pelo oficial condenado,
quem vai fazer cumpri-la contra a vontade das Forças Armadas?
0 presidente corre o risco de dar uma ordem neste sentido aos órgãos
de polícia do seu governo e não vê-la acatada.
Num momento de confronto, em geral, manda quem pode e obedece quem
tem juízo. E, quem dispõe das armas, já possue
uma grande vantagem inicial.
No
Chile, nem o apego à aparências, muito menos à
Constituição, garante ao Chefe do Executivo este mando.
0 poder do voto está com um, enquanto o poder bélico
e o da dissuasão está com o general comandante das
organizações militares. Pelo menos, se formaliza uma
relação que, em grande parte da nossa região
não é tão clara, porque informal e escamoteada.
A
única possibilidade, portanto, de uma decisão da Suprema
Corte do Chile ser cumprida, é contando com a aprovação
do estamento militar. Se este não concordar ou se se criar
mecanismo que evite o fiel cumprimento da sentença, o que
será da democracia chilena?
De
qualquer forma, ocorre naquele país um fato que evoca reflexão
sobre o papel das Forças Armadas, bem como sua relação
com o poder civil no continente latino-americano, os presidentes
desta parte do mundo não são, de verdade, Comandantes-em-Chefe
do Poder Militar. Este título pomposo, faz crer que o civil,
investldo na Presidência da República tem, efetivamente,
o comando. Ledo engano! Para se manter a liturgia do cargo e se
tentar refletir o que explicita nossas constituições,
faz-se de conta que o é, quando, na realidade, quem comanda
a tropa, sendo por ela reconhecida como Chefe, é o oficial-general
que esteja ocupando a mais alta função na hierarquia
militar.
Para
que o presldente civil, neste contexto, tenha alguma chance de se
afirmar, é indispensável que, além da força
que representa pela manifestação popular das urnas,
tome decisões precisas e determinadas, fazendo valer sua
autoridade, sempre com respeito à Constituição.
Se assim não o fizer, corre o sério risco de bater
continência ao primeiro fardado que encontrar na rua.
Será
este, o caso?
A
realidade é que o processo de reconstrução
democrática passa, necessariamente, por uma revisao do papel
das Forças Armadas num mundo redefinido geopoliticamente,
em que a interdepedência comercial e a globalização
econômica determine para os militares novos deveres que não
passam, necessariamente, pelo desempenho histórico que cumpriram
em nosso continente. Suas atribuções, hoje em dia,
talvez sejam outras.
Mas,
sem dúvida, um bom comeco será sempre, o cumprimento
integral das decisões de uma Suprema Corte, por ser ela a
ú1tima trincheira na defesa dos direitos do cidadão.
Se ela cair ou for tomada por adversários do regime democrático,
voltaremos a viver nos sombrios esconsos do totalitarismo e da violência.
0
Estado de Direito sofre, a cada vez que setores da sociedade avocam
a si o direito de se reunir em assembléias corporativas para
avaliar decisões da justiça no tocante às suas
categorlas e decidir se as acata ou não!
Recentemente,
no Brasil, vivemos algo muito parecido. O Tribunal Superior do Trabalho
declarou abusiva e ilegal a greve dos petroleiros, determinando
a volta imediata dos trabalhadores da empresa estatal Petrobrás,
detentora de burro monopólio, às suas lides. Reuniram-se
as lideranças sindicais e prolataram uma verdadelra sentença,
própria do abuso:
-
"A decisão do Tribunal foi politica e não Jurídica!
Por isto, não vamos acatá-la!".
Mais
do que petulância e fanfarronice, é um atentado à
própria democracia!
Aos
Presidentes da República, a escolha de uma linha de ação
entre a prudência e a omissão é o cuidado para
não confundir as virtudes de uma com os pecados da outra.
INTEGRAR
PARA BUSCAR A PAZ
Fernando
Collor
A integração econômica de Argentina, Brasil,
Paraguai e Uruguai, mais do que relações comerciais
vantajosas, garante a paz na região, diferenciando-a de certas
áreas do mundo, vitimadas pela desintegração
politica e pela luta armada. Até porque o país que
tivesse pretensões hegemônicas ou animus beligerandi,
não aceitaria criar uma zona de livre comércio com
nenhum outro, pois seria o mesmo que vestir uma camisa de força
ou estabelecer um fator de inibição à sua ambição
geopolítica.
0
Mercosul, nascido em 26 de março de 1991, com a assinatura
do Tratado de Assunção é, portanto, uma promessa
efetiva de solidariedade e de concórdia, reforçada
com a filiação da Argentina e do Brasil à AIEA
- Agência lnternacional de Energia Atômica - e pela
renúncia dessas duas nações ao desenvolvimento
de projetos de construção de armas de destruição
de massa.
Mesmo
assim, foi penoso o caminho percorrido até se chegar ao ato
que marcou o início da unificação das economias
do Cone Sul, que hoje representa um mercado de 200 milhões
de pessoas, PIB de 1 trilhão de dólares e um intercâmbio
de mais de 11 bilhões de dólares.Combinaram-se dois
fatores que exigiram muito, tanto do setor público quanto
do setor privado: abertura associada à integração.
0 primeiro, já estava a obrigar um aumento da efiência,
aliado à melhoria da qualidade dos produtos e ganhos de produtividade,
para competir e sobreviver. Juntava-se, a este, o reclamado pela
integração: reconhecimento eventual de um determinado
setor de não poder competir com o de outros países
pela sua desvantagem comparativa - ou especialização
- adaptação às diferenças de qualificação
de mão-de-obra, custos portuários, fretes, salários,
tributos e, sobretudo, tarifas.
Os
maiores entraves à modernização econômica
foram superados pela vontade política dos governos e graças
à compreensão, criatividade, esforço e visão
dos empresários. Todos perceberam ser fundamental a união
de nossos mercados para vencer num ambiente internacional cada vez
mais globalizado e não mais dividido entre esquerda e direita,
e sim entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem. Sendo
assim, o grande desafio que se apresenta neste final de século
é o de se estar apto para uma nova guerra. Não a convencional,
muito menos a fria ou ideológica, manifestações
da insensatez humana. Mas a da competência e do conhecimento,
do trabalho e da inovação tecnológica: a guerra
comercial.
Para
este enfrentamento, tanto mais estaremos preparados quanto mais
juntarmos nossas forças, o que vem sendo tentado, há
tempos, pela ALADI. Há que se avançar, compatibilizando,
entre si, as diversas iniciativas que tragam a marca da lntegração,
como é o caso do Grupo Andino, do Pacto Amazônico,
do Caricom e do próprio TLC, moldando-se então aí
a integração hemisforica,, do Alasca A Patagonia,
preconlzada pelo "Enterprise for the Americas. Um prinieiro
movimento IS foi realizado, quando subscrevi em nome dos presidentes
do Mercosul, com o ex-presidente George Bush, o Acordo -
Quadro de Comércio e lnvestimento, conhecido Como 4 + I ou
Rose Ciarden Agreement, em 19 de junho de 1991.
Com
a conclusão, em 15 de dezembro de 1993, da Rodada Uruguai
do GATT - Acordo Geral de Comércio e Tarifas - o censrio
estj sensivelmente melhorado pelo consenso que se estabeleceu naquela
entidade, após sete anos de debates. Mesmo com algumas questões
políticas a serem revolvidas, como o "dumping soclain
e meio-ambiente, existem agora regras mais próximas do que
é justo e é unânime na relação
comercial entre os países. A criação recente,
em 11. de Janeiro de 95, da OMC - Organização Mundial
do Comércío - que substitue o GATT com a missão
de aplicar aquelas normas e fiscalizar o seu cumprímento,
deve ser encerada como um indício forte de para onde se dirige
a preocupação daqueles que comandam as economias mundiais:
preparar-se para as batalhas da competição tecnológica
e da busca de novos mercados.
No
estágio em que nos encontramos, é indispensável
que se junte a nossos pares, além do A de Argentina e o B
de Brasil,, o C de uma importante economia do continente sul-americano:
o Chile, que até o momento, tem sido mero observador das
reuniões do Mercosul, e mostra-se mais interessado
numa possivel integração com os Estados Unidos. É
natural. Ele se diferenciou mais cedo com a aplicação
e o aprofundamento de suas reformas e, em consequência,, com
a conquista de sua estabilidade econômica. Isto não
significa, porém, que cruzemos os braços e deixemos
que se desvie. Para entendermos o processo de integração,
de forma gradual e coerente, e atender ao sonho bolivariano da nossa
América, é indispensável a participação
imediata daquela NK3o.
Mas,
Já temos o que comemorar. 0 fim das tensões neste
subreglao fol alcançado com meu gesto de colocar um pó
de cal na aventura nuclear (Serra do Cachimbo, em 18/09/90), seguido
da assinatura do Tratado Nuclear para a Paz (Foz de Iguaçu,
em 28/11/90), do Tratado de Assunção (26/03/91) e,
finalmente, com a adesão da Argentina e do Brasil A AIEA
(13/12/91).
Um
passo gigantesco foi dado na direção da construção
de um centro de solidariedade e de paz tendo, como pano de fundo,
a integração. Passamos assim do isolamento e do confronto
para uma era de cooperação e entendimento.
A
SAIDA SOCIAL-LIBERAL
Fernando
Collor
Liberdade econômica e promoção social.
Eis
a chave para o coroamento da proposta liberal: o compromisso com
a solução dos gravíssimos estigmas sociais
sociais que angustiam e penalizam grande parte da humanidade.
Chegou-se
ao quase final deste século, marcado por duas grandes guerras,
por uma série quase interminável de conflitos e por
lutas ideológicas, temendo-se o esfacelamento dos principios
liberais e, consequentemente, o colapso de uma sociedade democrática
e livre. Afinal, a divisão do mundo e a difusão do
pensamento Marxista-Leninista de forma tão vigorosa, nos
deixava entrever esta possibilidade.
Mals
eis que o inesperado dos aconteclmentos de 1989 e a velocidade das
mudanças ocorridas a partir daí, reverteu aquela expectativa
sombria e veio reafirmar a proposta liberal, embasada na democracia
e economia de mercado. Hoje, esta é uma tendência universal
que já alcança espaços geográficos importantes,
de maneira rápida e contundente.
Este
aparente fenómeno tem um fundamento: o liberalismo, antes
de doutrina, é sentimento. Está enraizado na natureza
humana, porque encarna um valor inestimável que rege a nossa
existencia: a liberdade. Ela é tão importante para
o nosso espírito quanta a pele para o nosso corpo - sem elas
não podemos viver em plenitude. É ela, a liberdade,
em sua real dimensão, a essência da proposta liberal,
a sua força e a sua razão de existir.
Assim,
apesar de se ter chegado ao final deste século com a sensação
da vitória do consenso liberal-democrático, não
se poder acomodar nem muito menos se iludir com este sucesso. Há
muito por fazer. Até porque, pegunto-me, se para esta vitória
não teriam contribuído decisivamente os erros e os
equívocos de uma doutrina da ilusão, que se esvaneceu
com o tempo, independentemente dos méritos liberais?
Por
isso, coloca-se agora, mais que nunca, este enorme desafio ao mundo
livre e democrático: vincular a prosperidade econômica
ao imperativo da promoção social.
Não
há mais tempo a perder!
0
ressurgimento entre nós de uma certa cultura de remorso social,
que no mais das vezes se degrada em demagogia, não basta
para atenuar o drama do cotidiano de nossos semelhantes, espalhados
pelos quatro cantos do globo. É preciso mais, muito mais!
É
preciso aprofundar a reforma liberal com redobrada atenção,
de forma acurada, procurando realizá-la sem um custo social
perverso. lsto significa que deve-se continuar trabalhando, sem
a perigosa e preguiçosa indulgência nem a indecisão
ou meias-medidas, que são as nossas maiores adversárias.
Sobretudo, sem temer os reptos, até porque a coragem de fazer
deve ser sempre maior que o medo de errar.
Agora,
às vésperas da abertura de uma nova era, que esperamos
seja mais generosa para com a humanidade, é necessário
que se reflita sobre o encaminhamento das soluções
para o enorme contencioso da agenda social das Nações.
O
século XX, prestes a se findar, ficou a nos dever o que se
esperava fosse seu grande legado: ao lado da afirmação
dos princípies liberais, uma fórmula que impedisse,
quando pouco, a proliferação da miséria em
nosso planeta.
O
século XIX, com a revolução industrial e todos
os seus desdobramentos, mudou o conceito de produção
e as relações do trabalho-capital. Foi o século
do avanço econômico.
O
século XVIII nos legou os princípios basilares do
direito e de justiça, sobre as quais se assenta a moderna
democracia. Foi o século do avanço político.
Para
o século atual, era de se esperar, pois, que se completasse
o trinômio, com o ingrediente do avanço social, o que
não ocorreu. Daí a necessidade de se estabelecer de
pronto, no seio da comunidade internacional, o compromisso com as
gerações futuras, corn base numa agenda criteriosa
que proporcione um debate sério, responsável e consequente.
Que este debate traga propostas objetivas de solução
de problemas que vão desde a fome, a falta de acesso à
educação, à saúde e ao trabalho, passando
pelo meio ambiente, atingindo questões comerciais e tecnológicas
e chegando ao recorrente tema da dívida externa, cujo peso
sobre a economia de países considerados de quarto mundo é,
como se sabe, esmagador.
Que
o século XXI cumpra este dever!
A
VERSÃO DE QUEM VIVEU O FATO
Fernando
Collor
Quem me arrancou da Presidência foram aqueles setores que
se viram contrariados pela minha ação de governo.
Mais especificamente, aqueles altamente corporativos, de direita
e de esquerda, do empresariado e do setor público.
0
primeiro, representado por um núcleo exremamente corporativo
do empresariado, envolvido no manto protetor da reserva de mercado,
queria-o cativo, repugnando a concorrência. Desejava também
continuar mantendo uma relação privilegiada com empresas
estatais, fornecedoras de matéria-prima para o setor industrial,
com preços e prazos altamente vantajosos e reservados para
uma seleta clientela.
Foram,
os representantes deste núcleo, contrariados pela abertura
de nossas fronteiras ao comércio exterior, pela chegada da
concorrência, pelo fim das reservas de mercado e da influência
que exerciam na nomeação de diretores das estatais,
por intermédio das indicações feitas pelos
seus apadrinhados políticos.
0
segundo, representado pelo corporativismo do setor público,
ávido por manter os seus privilégios, sobretudo nas
estatais, desafiava toda a 1ógica da eficiência e da
modernidade. Nas paquidérmicas estatais e nos burros monopólios,
com o imposto sindical e fundos de pensão, os que defendiam
o corporativismo do setor público tinham a sua recompensa.
Foram
contrariados pelo processo de privatização das empresas
estatais, que reduzia-lhes o poder de pressão junto ao governo,
eliminavas-lhe as sinecuras sindicais, ao tempo em que perdiam um
grande contribuinte para o fundo de pensão da estatal.
Eram,
portanto, poderosos os interesses que contrariei. Faltava, no entanto,
a esses dois setores, algo em torno do que se articular. Ficaria
difícil atacar-me naquele momento, sem abrir a guarda do
real objetivo da torpe conspiração.
Ansiavam
por um mote que tivesse apelo popular. Tão logo puderam encontrá-lo
nas denúncias contra o meu governo, com o aplauso decisivo
de quase toda a mídia nacional, sairam para uma campanha
difamatória sem precedentes na história de nosso país.
A
ação fol travestida: os adversários políticos,
liderados por Ibsen Pinheiro, levantaram a bandeira da Ética.
Os "caras-pintadas", manipulados na sua inocêncla,
cumpriram a tarefa plástico-estética do golpe. Finalmente,
criações jurídicas, plantadas na emoção
da repulsa encomendada, resultaram por destruir uma Presidência
legítima.
0
acordo, que reuniu quase todas as correntes políticas com
representação no Congresso, salvo uns poucos leais
e corajosos companheiros, estabelecia além da autorização
da Câmara para que eu fosse processado (setembro/92), o julgamento
político do Senado antes do final do ano (dezembro/92) e
posse provisória do vice-presidente. Este, renunciaria, para
que numa eleição indireta (já havia eu concluído
mais de metade do meu mandato), fosse escolhido Ulisses, fator de
convergência dessas correntes que urdiram a queda do Presidente,
o que somente não ocorreu em razão de sua morte em
outubro de 1992.
Acredito
que diversos fatos, que somente agora começam a surgir, possam
também ter concorrido para alimentar este desencadear de
paixões e insanidade. Mais cedo ou mais tarde eles aparecerão,
límpidos e cristalinos, rompendo a cortina de chumbo que
ainda os encobre. Basicamente, todavia, o que motivou o golpe foi
isto.
A
SAIDA SOCIAL-LIBERAL
Fernando
Collor
Liberdade econômica e promoção social.
Eis
a chave para o coroamento da proposta liberal: o compromisso com
a solução dos gravíssimos estigmas sociais
sociais que angustiam e penalizam grande parte da humanidade.
Chegou-se
ao quase final deste século, marcado por duas grandes guerras,
por uma série quase interminável de conflitos e por
lutas ideológicas, temendo-se o esfacelamento dos princípios
liberais e, consequentemente, o colapso de uma sociedade democrática
e livre. Afinal, a divisão do mundo e a difusão do
pensamento Marxista-Leninista de forma tão vigorosa, nos
deixava entrever esta possibilidade.
Mals
eis que o inesperado dos aconteclmentos de 1989 e a velocidade das
mudanças ocorridas a partir daí, reverteu aquela expectativa
sombria e veio reafirmar a proposta liberal, embasada na democracia
e economia de mercado. Hoje, esta é uma tendência universal
que já alcança espaços geográficos importantes,
de maneira rápida e contundente.
Este
aparente fenómeno tem um fundamento: o liberalismo, antes
de doutrina, é sentimento. Está enraizado na natureza
humana, porque encarna um valor inestimável que rege a nossa
existência: a liberdade. Ela é tão importante
para o nosso espírito quanta a pele para o nosso corpo -
sem elas não podemos viver em plenitude. É ela, a
liberdade, em sua real dimensão, a essência da proposta
liberal, a sua força e a sua razão de existir.
Assim,
apesar de se ter chegado ao final deste século com a sensação
da vitória do consenso liberal-democrático, não
se pode acomodar nem muito menos se iludir com este sucesso. Há
muito por fazer. Até porque, pegunto-me, se para esta vitória
não teriam contribuído decisivamente os erros e os
equívocos de uma doutrina da ilusão, que se esvaneceu
com o tempo, independentemente dos méritos liberais?
Por
isso, coloca-se agora, mais que nunca, este enorme desafio ao mundo
livre e democrático: vincular a prosperidade econômica
ao imperativo da promoção social.
Não
há mais tempo a perder! 0 ressurgimento entre nós
de uma certa cultura de remorso social, que no mais das vezes se
degrada em demagogia, não basta para atenuar o drama do cotidiano
de nossos semelhantes, espalhados pelos quatro cantos do globo.
É preciso mais, muito mais!
É
preciso aprofundar a reforma liberal com redobrada atenção,
de forma acurada, procurando realizá-la sem um custo social
perverso. lsto significa que deve-se continuar trabalhando, sem
a perigosa e preguiçosa indulgência nem a indecisão
ou meias-medidas, que são as nossas maiores adversárias.
Sobretudo, sem temer os reptos, até porque a coragem de fazer
deve ser sempre maior que o medo de errar.
Agora,
às vésperas da abertura de uma nova era, que esperamos
seja mais generosa para com a humanidade, é necessário
que se reflita sobre o encaminhamento das soluções
para o enorme contencioso da agenda social das Nações.
O
século XX, prestes a se findar, ficou a nos dever o que se
esperava fosse seu grande legado: ao lado da afirmação
dos princípios liberais, uma fórmula que impedisse,
quando pouco, a proliferação da miséria em
nosso planeta.
O
século XIX, com a revolução industrial e todos
os seus desdobramentos, mudou o conceito de produção
e as relações do trabalho-capital. Foi o século
do avanço econômico.
O
século XVIII nos legou os princípios basilares do
direito e de justiça, sobre as quais se assenta a moderna
democracia. Foi o século do avanço político.
Para
o século atual, era de se esperar, pois, que se completasse
o trinômio, com o ingrediente do avanço social, o que
não ocorreu. Daí a necessidade de se estabelecer de
pronto, no seio da comunidade internacional, o compromisso com as
gerações futuras, corn base numa agenda criteriosa
que proporcione um debate sério, responsável e consequente.
Que este debate traga propostas objetivas de solução
de problemas que vão desde a fome, a falta de acesso à
educação, à saúde e ao trabalho, passando
pelo meio ambiente, atingindo questões comerciais e tecnológicas
e chegando ao recorrente tema da dívida externa, cujo peso
sobre a economia de países considerados de quarto mundo é,
como se sabe, esmagador.
Que
o século XXI cumpra este dever!
DEFININDO
AS MEDIDAS
Fernando
Collor "Todos
nós já sabemos que é mais seguro permanecer
no porto, mas afinal não foi para isto que foram construídos
os barcos."
Nas
semanas que antecederam a minha posse na Presidência da República,
promovi inúmeros encontros com pessoas do mundo acadêmico,
dos círculos políticos, militares e econômicos.
Procurava
ouvir deles as sugestões, as suas idéias, suas apreensões
e daí tentar sentir o pulso deste conjunto de pessoas e setores
tão influentes na vida do país e no dia a dia dos
cidadãos.
0
ex-ministro Simonsen, era uma dessas personalidades. Além
de sua experiência como executivo e professor, era muito bem
informado e possuía uma legião de ex-alunos ou de
admiradores que incluíam algumas das melhores cabeças
do país.
Pedi
que lhe fosse transmitido meu convite para um encontro, em Brasília.
Adiantei ser do meu interesse saber sua opinião sobre as
medidas que o meu governo precisaria adotar para equacionar os efeitos
de uma grave crise de desarranjo nas contas públicas, devido
a um modelo econômico desajustado do contexto global e enveredando
por uma inflação que beirava os 90% ao mês.
Tendo
aceito o convite, fui cientificado de que ele gostaria de estar
acompanhado de dois jovens amigos seus, que tinham visões
distintas entre si mas que por isso mesmo, poderiam colaborar no
estabelecimento de alternativas no campo das soluções
para o problema brasileiro. Aquiesci com a vinda de todos e combinamos
então a data.
No
inicío da tarde do dia aprazado, iniciamos nossa conversa.
Presentes, além do ex-ministro e de mim, seus dois amigos,
André Lara Rezende e Daniel Dantas. Ele os apresentou como
dois gênios, o primeiro com maior pendor para o setor público,
embora traumatizado pela experiêncla do Plano Cruzado; o segundo,
com total vocação para a iniciativa privada, animado
com o sucesso que estava alcancando na administração
financeira de uma tradicional e influente família carioca.
Perguntei-lhes
então o que êles fariam, se no meu lugar estivessem,
para controlar a inflação, numa apreciação
conjuntural, e quais os pontos que atacariam, na parte estrutural.
0
professor Simonsen, fumando muito, começou a falar:
-
Primeiro, ratificar o seu programa de governo, se possível
detalhando as diversas ações. Há que se dar
visibilidade aos agentes econômicos. Eles precisam ter segurança
de que, dentro de um projeto de governo claro, definido, as etapas
de sua implementação não sofrerão sobressaltos
nem eles terão surpresas. É absolutamente necessário
a elaboração de um orçamento realista, com
forte retenção nas despesas do governo e uma melhoria
substancial na eficiência da máquina arrecadadora.
-
É exatamente isto a que nos propomos, ministro. Mas o que
se pode fazer para, num curto prazo, debelar esta escalada monstruosa
da inflação? Se ela persistir, nao haverá espaço
político para se avançar com as medidas que tenho
em mente. lnflação alta como esta significa insatisfação
popular que se reflete no Congresso Nacional. Este, por sua vez,
nessas circunstâncias, não oferecerá ao meu
governo o apoio de que necessitarei para implementar as reformas
estruturais.
-
Ah, presidente, acho ser preciso jogar um pouco com a possibilidade
de êxito político. 0 Congresso será renovado
meses depois da sua posse (tomei posse em março/90 e houve
eleições legislativas e para os governos estaduais
em outubro/90). Talvez nesse intervalo entre um Congresso que sai
e um outro que entra, possa haver uma boa chance de se conseguir
sucesso, respaldado sobretudo por um presidente recém-eleito
pelo voto popular.
Neste
momento, interveio André Lara Rezende:
-
Mas o principal fator que hoje realimenta o processo inflacionário
é a excessiva liquidez. Não há como se tratar
da questão sem verificarmos que este potencial de explosão
de consumo, com a liquidez no nível em que se encontra, torna
impossivel qualquer ação eficaz neste particular.
É como tentar apagar o fogo com gasolina!
Volta
Simonsen, pensativo:
-
É, isto é verdade. A expansão da base se deu
de forma brutal e descontrolada ...
-
A não ser que se congelem os ativos, interrompeu Lara Rezende.
-
Como? perguntou Daniel Dantas, levantando-se. Que sugestão
é esta André? Isto seria o mesmo que uma revolução!
É inaceitável!
E
perguntou ao seu interlocutor:
-
Você, André, se responsabilizaria por uma medida dessas?
Você, com a caneta na mão, faria isto?
-
Não, não, estou só colocando uma alternativa
...
Então,
não queira fazer cumprimentos com o chapéu alheio!
Acalmaram-se,
com o pedido neste sentido feito por Simonsen, que retomou:
-
A colocação do André, presidente, é
correta do ponto de vista eminentemente técnico. Mas há
considerações de outra natureza que necessitam ser
levadas em conta. Uma delas é esta que acaba de fazer Daniel.
É um profissional do mercado que reflete o espanto de quem,
diante de uma proposta como esta, pode perder muito.
Continuando,
disse:
-
É, realmente, esta solução não é
exequível. Bloquear os ativosfinanceiros, ou parte deles,
neste momento, é impossível, embora seja esta a única
alternativa a curtíssimo prazo, e junto com medidas acessórias,
de atacar a inflação e aí criar o clima político
que propicie o encaminhamento das reformas estruturais num ambiente
econômico de inflação baixa.
Eu,
que ouvia a tudo com redobrada atenção, pois já
estava em final de gestação sob rigoroso sigilo, o
pacote de medidas que adotaria logo após a posse, fui formando
minha convicção sobre o quê fazer.
Semanas
depois, veio o Plano Collor.
FORMAÇÃO
DO GOVERNO
Fernando
Collor "O
velho está morrendo e e o novo não pode nascer".
Nesse interregno, surge uma rica diversidade de sintomas mórbidos.
" Antônio Gramsci
A
eleição havia sido ganha, depois de dois turnos de
uma campanha fatigante e violenta.
A
primeira pergunta que me veio, depois da vitória foi: e agora,
como fazer?
Aquela
mesma indagação levei ao Merquior, numa conversa cujo
início já foi aqui trazido. Depois de tudo o que estava
sentindo e ouvindo, tinha rapidamente que estabelecer uma linha
de ação que tornasse possível a implementação
do nosso Projeto de Reconstrução Nacional, este sim
já muito bem definido e claro. Ou seja, o quê fazer
eu já sabia. Faltava o como fazer ou como obter os meios
que me permitissem realizar as propostas que levei às ruas
e que foram apoiadas pelo voto popular.
-
E então, Embaixador, por onde começar esta reconstrução?
-
Lançando logo duas pontes de entendimento, disse--me ele:
uma com a classe política, buscando quadros de outros partidos
com idéias assemelhadas, para lhe ajudar nesta tarefa. Além
do PFL, com o qual o senhor já constituiu relações
sólidas, seguramente o PSDB e outros partidos menores. 0
senhor deve reforçar o seu entorno, e tem a seu favor um
projeto de governo que facilita a vinda destes outros partidos seja
porque tem uma visão muito parecida (o PFL) ou assemelhada
(o PSDB).
-
E a outra ponte, Embaixador?
-
A outra, com as Forças Armadas. 0 senhor necessita ter à
sua retaguarda chefes militares profissionais e fiéis ao
seu comando. Deve o senhor desinflamar alguns áreas, ressentidas
com o episódio que lhe envolveu e ao ex-chefe do SNI.
Concordei
com a explanação e contei-lhe já haver iniciado
os primeiros contatos com vistas à participação
em meu governo de quadros tanto do PFL quanto do PSDB. Do PFL, partido
de políticos experientes e determinados, não houve
problemas maiores. A composição foi rápida,
até porque 1ógica, devido ao apoio que me foi dado
no segundo turno das eleições.
A
dificuldade, dizia eu ao Merquior, residia exatamente na participação
do PSDB. Relatei-lhe o encontro - no anexo do ltamaraty, onde funcionava
o governo de transição - com o seu então presidente
Franco Montoro, tratando de participação do partido
na equipe de governo. Os pontos de convergência eram tantos
que a conversa rapidamente evoluiu para se definir em que áreas
se daria esta presença.
-
Tinha-me levado uma relação de cinco pontos programáticos,
abrangendo dos setores sociais à área econômica,
que o PSDB gostaria de ver incluídos em meu plano de ação.
Disse-lhe que concordava, até porque já faziam parte
de nossa proposta. Daí iniciamos a tratar de que forma esta
presença se daria. E lhe transmiti o convite para que o partido
ocupasse as pastas da Fazenda e das Relações Exteriores.
Sugeri os nomes de José Serra e Fernando Henrique Cardoso,
respectivamente.
E
continuei.
-
Montoro despediu-se, não sem antes manifestar seu desagrado
com o meu havana (que ele havia me pedido para não acender),
dizendo-me que iria ao encontro das lideranças do seu partido,
que o esperavam para tomarem a decisão final.
-
No início da tarde, recebo um seu teletonema. Animado, dava-me
conta de que os entendimentos avançavam bem e a receptividade
fora a melhor possível. Queria ele, no entanto, adicionar
mais dois pontos àqueles cinco iniciais que me havia trazido.
Ambos, da mesma maneira, já estavam incluidos no nosso progama.
Lembro-me que um destes era o da integração latino-americana.
Terminei
o meu relato, informando ao Merquior que a tarefa já havia,
portanto, sido iniciada e manifestando o meu contentamento pelo
fato de minha ação concordar com a sua formulação
teórica.
Coloquei-lhe
então a par da situação, naquele momento.
-
Combinei com Montoro que, nesses meus dias de ausência, ele
faria os preparativos internos para que, quando da minha volta ao
Brasil, pudessemos anunciar a decisão.
Retomamos
os outros assuntos de nossa agenda, enveredando pelo arcabouço
doutrinário do futuro governo, de que tratarei em outro instante.
Terminamos já no meio da tarde e despedimo-nos, ambos satisfeitos
com o rumo dos acontecimentos.
Retornando
ao Brasil, dei ciência à população dos
nomes indicados para ocupar os outros ministérios, pois antes
de viajar já havia escolhido o da justiça. Falei com
Montoro que pediu um pouco mais de tempo para divulgar o acordo.
Disse-lhe que a expectativa em torno do anúncio do titular
da Fazenda era grande, sendo necessário apressar a decisão.
Os mercados, como sempre nessas ocasiões, estavam inquietos.
Respondeu-me que não tardaria com a resposta.
Os
nomes dos dois últimos ministros anunciados foram o da Economia
e o das Relações Exteriores. Não eram do partido
do Montoro.
MEXARSIL
Fernando
Collor
0 processo de integração econômica de países
latino--americanos, associado às reformas exigidas por planos
de estabilização, traz ao centro da atenção
international a situação de três dos mais fortes
mercados da região: México, Argentina e Brasil.
Todos
os três têm na sua fase contemporânea o gene autoritário:
o primeiro, por um sistema político sui-generis que faz com
que um único partido hegemônico comande há mais
de 50 anos o seu processo político. Os outros dois, traumatizados
por décadas de regimes militares que apagaram, sobretudo
no Brasil, toda e qualquer forma de organização política
e social que desaguasse no fortalecimento de seus sistemas partidários
e aprimorasse suas instituições.
Assim,
como encaminhar questões sem os canais adequados de representação
política para a promoção dos debates em torno
destas e, consequentemente, como apresentar as soluções
ajustadas à realidade presente?
No
Brasil, o esfacelamento do sistema partidário serviu para
o desarranjo institucional do país. A chamada falta de governabilidade
nada mais é do que, na origem, a ausência de agremiações
doutrinariamente definidas, que sejam o fator gregário de
aglutinação de pessoas em torno de idéias e
não tão somente em busca da satisfação
de seus interesses.
Mesmo
assim, a sociedade moveu-se no sentido da redemocratização.
Buscou uma definição democrática, o que aconteceu
com as eleições presidenciais de 1989, vinte e nove
anos depois de ter o Brasil eleito pelo voto popular seu último
presidente da República.
Reencontrar-se
com as urnas já era um grande passo: definia-se o país
politicamente. Restava-lhe definir-se economicamente. 0 muro de
Berlim havia caído, o maniqueísmo ideológico
sepultado, a necessidade de um relacionamento comercial ativo entre
os países mostrou-se imperativa, tendo como pano de fundo
a busca da paz mundial.
Inserir-se
neste novo quadro geopolítico, associar-se às grandes
correntes do comércio international e posicionar-se como
parceiro sério e cooperativo, foi o gigantesco passo dado
em 1990 liberando o país dos grilhões de um processo
de desenvolvimento autárquico, baseado na substituição
de importações e gerador de setores pouco competitivos
e oligopolizados.
Portanto,
duas definições básicas foram adotadas: as
opções pela democracia representativa e pela economia
de mercado. Ou seja, liberdade política e liberdade econômica.
Ambas
necessitam ser aprimoradas, precisam reformas. A primeira delas
é a reforma política, mãe de todas as outras.
Visa, ao lado de melhorar qualitativamente o nível de representação
popular, fortalecer doutrinamente o sistema partidário e
consolidar o processo democrático. Também a administração
pública, como reflexo direto das regras do jogo político,
seria beneficiada. Por extensão, a população
experimentaria uma melhoria acentuada no padrão de atendimento
que lhe é prestada.
A
outra, é a reforma econômica estrutural, sem a qual
o plano de estabilização não se mantem à
tona, nem, muito menos, consegue seu objetivo social. 0 plano brasileiro
vem se sustentando graças ao esforço desesperado de
um grupo de burocratas que aperta cada vez mais os parafusos das
políticas monetária e cambial, como a buscar um pouco
mais de segurança para a sua engrenagem. O desespero é
tanto que um deles disse a uma revista semanal: "vale tudo para
segurar a inflação: de tiro pelas costas até
chute embaixo do umbigo". Acontece que a rosca não aguentará
esta pressão por muito mais tempo e com tiro e chute não
se estabiliza economia.
0
atual governo brasileiro tardou com as medidas estruturais, parecendo
não ter a certeza das suas necessidades. Nos discursos oficiais,
o anúncio do que se pretendia fazer. Na ação
prática, recuos e indefinições. Faltou uma
demonstração clara, logo no início, que a nova
administração do país tem uma coragem de fazer,
maior que o seu medo de errar. Ou seja, faltou uma prova inequívoca
de que, além da intenção de, o governo tem
a convicção para.
0
tempo passa e aquelas duas ações, que consolidariam
uma proposta democrática moderna, ou social-liberal, ainda
não se concretizaram.
No
caso do México, perdeu-se o "timing", o que provocou o seu
ingresso numa fase dolorosa de favores e de consternação
social. Ainda assim, graças ao fato de ter se ligado umbilicalmente
aos Estados Unidos via TLC, sua situação não
é pior.
A
Argentina, aos trancos e barrancos, tentou superar suas, cada vez
maiores, dificuldades conjunturais, com uma eleição
que terá consequências. Com a re-eleição
do atual presidente, um mais severo nível de ajuste se tornou
necessário. Se tivesse vencido o opositor, tudo teria voltado
à estaca zero e, todo o sacrifício já feito
pela sociedade argentina, de nada teria valido.
O
remédio econômico adotado pelo México, Argentina
e Brasil - Mexarsil -não deve ser conhecido no futuro como
algo incompatível com a recuperação de organismos
economicamente enfermos, democraticamente debilitados, num ambiente
social de extrema gravidade e complexidade.
Aí
reside o grande dilema do processo liberal: demonstrar que somente
a liberdade econômica conjugada à liberdade política,pode
oferecer condições de vida digna à população
mais carente e garantir-lhe o acesso à educação,
à saúde, ao trabalho, à vida; demonstrar que
somente o processo liberal é compatível com um desenvolvimento
capaz de repartir os seus frutos com parcelas ampliadas da população
desassistida.
Aí
está o desafio para os governantes destes três países.
DIÁLOGO
COM MERQUIOR
Fernando
Collor
Se
aínda vivemos em uma República em que
disputar uma eleição contra a vontade dos
dominadores constitui crime, o Rio Grande
do Sul vai armar-se para a sua defesa."
Getúlio
Vargas
Entre
a minha vitória e a posse na Presidência da República,
realizei uma viagem a diversos países para encontros com
chefes de Estado, de governo e autoridades de organismos Internacionais.
Na
minha passagem por Paris, solicitei ao então Embaixador do
Brasil junto à UNESCO, José Guilherme Merquior, por
quem sempre tive enorme admiração e respeito, que
viesse ao meu encontro, no hotel onde me encontrava hospedado, para
tomarmos um café e continuarmos uma conversa iniciada meses
atrás, durante a campanha eleitoral.
Êle
chegou pontualmente à hora marcada. A manhã estava
bem agradável e o meu Interlocutor bem disposto, mesmo já
sofrendo com os seus problemas de saúde.
Tomou
naquele momento a palavra, com a educação e polidez
que além dos méritos acadêmicos, o caracterizava:
-
Presidente desculpe-me. Sei que dispomos de muito pouco tempo e
necessitaria, com sua permissão, dizer-lhe algo que me preocupa
bastante.
-
Pois não, Embaixador.
-
Presidente, fiquei muito feliz com a sua vitória. No entanto,
Não sei se devo parabenizá-lo ou se devo apresentar-lhe
o meu pesar.
Eu
que esperava uma conversa amena e descontraída, fiquei imediatamente
alerta, pela investida inesperada.
-
Pois não, Embaixador. Pode o senhor me explicar o poquê?
-
Presidente, retomou Merquior, a sua vitória foi a derrota
de muita gente , de muitos setores da burguesia, diria mesmo de
algumas das Instituições mais poderosas do país.
-
Como assim, Embaixador?
-
O senhor, presidente, ousou demais. Aqueles que foram derrotados
nunca irão lhe perdoar. Como estava lhe dizendo, a sua vitória
foi a derrota da direita, da esquerda, da classe política
e dos grandes empresários cartelizados, de setores da Igreja
e dos sindicatos, de grande parte dos intelectuais, de grande parte
dos formadores de opinião e ,até mesmo, das Forças
Armadas. O senhor já imaginou como poderá governar
sem estas forças? Por isto, não sei se apresento-lhe
meus pêsames ou minhas felicitações.
Pela
primeira vez, alguém me colocava de forma tão direta
e precisa algo que eu já intuía no processo da campanha
eleitoral. Percebia que o apoio da massa era fortíssimo,
um movimento popular que nascia nas pequenas comunidades e se espraiava
nas capitais e grandes centros. Mas sentia, embora de forma difusa,
uma enorme má-vontade dos donos do poder, dos mandarins da
República, em relação à minha candidatura.
Viam-me como uma ameaça às suas tranquilidades. Viam-me
com apreensão por ser eu um candidato liberto de todo e qualquer
compromisso que pudesse tolher minhas ações de governante
e minar minha autoridade. Por outro lado, tinham que se conformar
com a manifestação eleitoral do povo e ,aceitando
esta realidade, tentar adaptar-se aos novos tempos. Até porque
o meu programa de governo soava como algo lógico e indispensável
para o Brasil. E isto de alguma maneira os confortava.
Refeito
do impacto inicial, concordei com o Embaixador, que havia sintetizado
em poucas palavras o que eu sentia há tempos, de maneira
pouco clara.
Continuou
o Embaixador:
-
Sem os políticos e os grandes partidos, sem parcelas importantes
da Igreja e das Forças Armadas, sem os intelectuais e sem
os formadores de opinião, o senhor não conseguirá
governar. Por isso, acho que o senhor deve, com a maior presteza,
iniciar seu trabalho de reconstrução (fazia alusão
aí ao meu partido, PRN- Partido da Reconstrução
Nacional), reconstruindo suas relações com todos esses
setores. Se o senhor conseguir, melhor para o Brasil e lhe apresentarei
meus parabéns. Se o senhor não conseguir, será
muito ruim para o país e lhe enviarei meus sentimentos.
Adiante,
irei me referir ao esforço que realizei de recomposição
com todos os citados. Por enquanto, o registro premonitório
de um grande amigo, embora recém-constituído, que
colaborou decisivamente comigo e com o Nação na formulação
de idéias e de propostas doutrinárias.
FORMAÇÃO
DO GOVERNO
Fernando
Collor "O
velho está morrendo
e o novo não pode nascer.
Nesse interregno, surge uma rica diversidade de
sintomas mórbidos." Antônio Gramsci
A
eleição havia sido ganha, depois de dois turnos de
uma campanha fatigante e violenta.
A
primeira pergunta que me veio, depois da vitória foi: e agora,
como fazer?
Aquela
mesma indagação levei ao Merquior, numa conversa cujo
início já foi aqui trazido. Depois de tudo o que estava
sentindo e ouvindo, tinha rapidamente que estabelecer uma linha
de ação que tornasse possível a implementação
do nosso Projeto de Reconstrução Nacional, este sim
já muito bem definido e claro. Ou seja, o quê
fazer eu já sabia. Faltava o como fazer, ou
como obter os meios que me permitissem realizar as propostas que
levei às ruas e que foram apoiadas pelo voto popular.
-
E então, Embaixador, por onde comecar esta reconstrução?
-
Lançando logo duas pontes de entendimento, disse-me ele:
uma com a classe política, buscando quadros de outros partidos
com idéias assemelhadas, para lhe ajudar nesta tarefa. Além
do PFL, com o qual o senhor já constituiu relações
sólidas, seguramente o PSDB e outros partidos menores. 0
senhor deve reforçar o seu entorno, e tem a seu favor um
projeto de governo que facilita a vinda destes outros partidos seja
porque tem uma visão muito parecida (o PFL) ou assemelhada
(o PSDB).
-
E a outra ponte, Embaixador?
-
A outra, com as Forças Armadas. 0 senhor necessita ter à
sua retaguarda chefes militares profissionais e fiéis ao
seu comando. Deve o senhor desinflamar alguns áreas, ressentidas
com o episódio que lhe envolveu e ao ex-chefe do SNI.
Concordei
com a explanação e contei-lhe já haver iniciado
os primeiros contatos com vistas à participação
em meu governo de quadros tanto do PFL quanto do PSDB. Do PFL, partido
de políticos experientes e determinados, não houve
problemas maiores. A composição foi rápida,
até porque 1ógica, devido ao apoio que me foi dado
no segundo turno das eleições.
A
dificuldade, dizia eu ao Merquior, residia exatamente na participação
do PSDB. Relatei-lhe o encontro - no anexo do ltamaraty, onde funcionava
o governo de transição - com o seu então presidente
Franco Montoro, tratando de participação do partido
na equipe de governo. Os pontos de convergência eram tantos
que a conversa rapidamente evoluiu para se definir em que áreas
se daria esta presença.
-
Tinha-me levado uma relação de cinco pontos programáticos,
abrangendo dos setores sociais à área econômica,
que o PSDB gostaria de ver incluidos em meu plano de ação.
Disse-lhe que concordava, até porque já faziam parte
de nossa proposta. Daí iniciamos a tratar de que forma esta
presença se daria. E lhe transmiti o convite para que o partido
ocupasse as pastas da Fazenda e das Relações Exteriores.
Sugeri os nomes de José Serra e Fernando Henrique Cardoso,
respectivamente.
E
continuei.
-
Montoro despediu-se, não sem antes manifestar seu desagrado
com o meu havana (que ele havia me pedido para não acender),
dizendo-me que iria ao encontro das lideranças do seu partido,
que o esperavam para tomarem a decisão final.
-
No início da tarde, recebo um seu teletonema. Animado, dava-me
conta de que os entendimentos avançavam bem e a receptividade
fora a melhor possível. Queria ele, no entanto, adicionar
mais dois pontos àqueles cinco iniciais que me havia trazido.
Ambos, da mesma maneira, já estavam incluidos no nosso progama.
Lembro-me que um destes era o da integração latino-americana.
Terminei
o meu relato, informando ao Merquior que a tarefa já havia,
portanto, sido iniciada e manifestando o meu contentamento pelo
fato de minha ação concordar com a sua formulação
teórica.
Coloquei-lhe
então a par da situação, naquele momento.
-
Combinei com Montoro que, nesses meus dias de ausência, ele
faria os preparativos internos para que, quando da minha volta ao
Brasil, pudessemos anunciar a decisão.
Retomamos
os outros assuntos de nossa agenda, enveredando pelo arcabouço
doutrinário do futuro governo, de que tratarei em outro instante.
Terminamos já no meio da tarde e despedimo-nos, ambos satisfeitos
com o rumo dos acontecimentos.
Retornando
ao Brasil, dei ciência à população dos
nomes indicados para ocupar os outros ministérios, pois antes
de viajar já havia escolhido o da justiça. Falei com
Montoro que pediu um pouco mais de tempo para divulgar o acordo.
Disse-lhe que a expectativa em torno do anúncio do titular
da Fazenda era grande, sendo necessário apressar a decisão.
Os mercados, como sempre nessas ocasiões, estavam inquietos.
Respondeu-me que não tardaria com a resposta.
Os
nomes dos dois últimos ministros anunciados foram o da Economia
e o das Relações Exteriores. Não eram do partido
do Montoro.
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