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CRÔNICA DE UM GOLPE
A
versão de quem viveu o fato
Primeiro
capítulo
Os meus funcionários do Palácio do Planalto foram
protagonistas e testemunhas de todo o processo. Alguns - mais experientes
- certamente puderam prever que logo a traição bateria
à porta do meu gabinete, sobretudo depois que fiz alterações
necessárias no ministério e acolhi, na ante-sala,
a colaboração de figuras que se aproximam dos governantes,
sejam quais forem, porque não sabem sobreviver senão
à sombra do poder. Esses anônimos funcionários
acompanharam apreensivos o dia angustiante de 29 de setembro de
1992, a data de votação do pedido de impeachment no
Congresso Nacional. Foi um dia tomado por articulações,
dúvidas e certezas. Votos certos a meu favor, até
mesmo de parlamentares amigos, foram de súbito revertidos
depois de conversas reservadas, certamente gratificantes, com os
articuladores golpistas. O incessante entra-e-sai do meu gabinete
foi diminuindo à medida em que caía a tarde e avançava
a sessão do Congresso, acompanhada por manifestantes concentrados
inclusive no lado de fora daquela Casa, a que servimos meu avô
Lindolfo Collor, meu pai Arnon de Mello e eu.
Fez-se escuro.
Com a ajuda de um pequeno controle remoto, acendi
apenas as lâmpadas de halogênio direcionadas sobre a
minha mesa. Completamente sob penumbra, foi invadido pela quietude
o amplo gabinete que me acolheu por quase mil dias, desde 1990,
e de onde governara com a certeza de que fazia as melhores escolhas
para o meu País e a minha gente. Pedi para não ser
incomodado. Fiquei só. Enquanto no Congresso a traição
se manifestava e o golpe se consolidava, no meu gabinete nada se
ouvia.
0 silêncio era total.
Nenhum aparelho de rádio ou televisão
ligados, o telefone emudecido. Sequer murmúrios das duas
saletas ao lado, onde estavam ajudantes de ordem e assessores mais
íntimos. Durante alguns minutos, talvez trinta, quarenta,
rendi-me às recordações de minha infância,
da adolescência no Colégio São José,
no Rio de Janeiro, dos conselhos de meu pai ( "no exercício
da política, meu filho, é fundamental três coisas
- paciência, paciência, muita paciência",
dizia-me), das lutas em Alagoas, do processo arrebatador que me
levou ao Planalto, da agonia de minha mãe no leito do hospital,
da expressão assustada dos meus filhos, das decisões
que tomei naquele gabinete finalmente deserto, escuro, silencioso.
Inerte, à janela, contemplando o nada, tentava
ouvir o silêncio. Mas o que ouvi, de repente, foi um ruído
surdo, um rumor de multidão, que saía do plenário
da Câmara dos Deputados, chegava aos manifestantes e logo
se espalhava, misturando-se a buzinas de automóveis. Percebi
naquele momento que o impeachment havia sido aprovado. Continuei
só, em pé, imóvel.
Era o fim.
Dali a instantes, o secretário-geral da Presidência
da República entrou no gabinete e, às minhas costas,
disse com voz clara, triste e respeitosa:
-Senhor Presidente , a votação acabou.
Voltei-me para ele e o dispensei da necessidade
de fazer a comunicação do resultado da votação:
-Já sei Marcos. Não temos mais o que
fazer. Vamos para casa.
Parecia um dia qualquer, mas era o último.
Senti as mãos de Rosane entrelaçarem a minha, apertando-a
vigorosa e carinhosamente. Sem mesmo olhar em seus olhos, imaginei-a
assustada. As mãos firmes estavam frias, mais do que impõe
o clima de Brasília nos outubros secos de manhãs geladas.
Ela havia chegado minutos antes, perto das 10h, depois de o Chefe
do Gabinete Militar (General Agenor Homem de Carvalho) ordenar ao
hesitante piloto que o helicóptero fosse buscá-la
em casa. Estava especialmente bonita naquela manhã, no tailleur
rosa, simples mas elegante, e mantinha os cabelos curtos, emoldurando
os olhos claros, naturalmente abertos e desafiadores. Havia outras
pessoas no gabinete, mas por um momento senti-me absolutamente a
sós com ela. Não me passava pela cabeça que
ficaríamos assim, sozinhos, dali em diante, por um longo
período. Convencera-me de que logo estaríamos de volta,
após o triunfo da verdade.
De mãos dadas, deixamos o gabinete para entrarmos
no pequeno reservado, onde muitas vezes refleti sobre as decisões
necessariamente solitárias, para dali chegarmos ao salão
do lado, onde aguardava um numeroso grupo de jornalistas, parlamentares,
funcionários e até mesmo alguns curiosos. Diante da
porta que nos separava daquelas pessoas, parei um momento para uma
breve oração, concluindo quase com um sussurro: "dai-nos
forças, meu Deus, para que superemos tudo isso com dignidade
e fé".Ao abrir os olhos, encontrei os de Rosane a refletir
uma serenidade espantosa. Afagou-me a mão mais uma vez. Em
significativo silêncio, ela parecia dizer: "tudo bem,
vamos enfrentar isso juntos". De modo algum parecia assustada,
como imaginei antes. Ao contrário. Permanecia calma. Acho
que nela se alevantara a tal valentia sertaneja, própria
da minha gente do Nordeste. Rosane carregava uma dignidade da qual
me orgulharei sempre.
À chegada do helicóptero na Casa da
Dinda, horas antes, dera-me conta da rotina que se estabelecera
no início do governo, 133 semanas antes, exatos 932 dias.
Despedi-me com um beijo, lembrando que a aguardaria no Palácio
do Planalto às dez horas da manhã daquele 2 de outubro,
e acenei, como sempre fazia, para algumas pessoas que comigo trabalhavam
na Casa da Dinda. À medida em que me aproximava do Planalto,
sobrevoando a quietude da paisagem de Brasília e as águas
do Paranoá, invadiu-me um certo sentimento de alívio,
como se me encaminhasse para a última bataIha, a derradeira
volta de uma corrida, o tempo final de uma partida.
"Vou finalmente descansar um pouco, retemperar
as forças e partir para a luta", confortei-me, contemplando
do alto da Praça dos Três Poderes, enquanto se realizava
o procedimento de pouso. 0 percurso fora vencido em pouco mais de
dois minutos. No terceiro andar do Planalto, encontrei o gabinete
já com as gavetas vazias e sem as condecorações,
mantidas antes em pequenos mostradores de madeira e vidro.
- Está tudo encaixotado, Senhor Presidente,
disse-me alguém.
Símbolo de uma atitude moderna frente à
administração pública, o computador que me
servia estava finalmente emburrecido, sem memória nem saber.
As fotografias de minha mulher e dos meus filhos desapareceram da
mesa, assim como as imagens de Nossa Senhora da Conceição
e de S. Francisco de Assis, esta um presente de Frei Damião
de Bozanno. 0 gabinete voltara a ser frio e impessoal.
Os funcionários da Secretaria Geral da Presidência
da República quiseram apresentar as suas despedidas. Estavam
emocionados, com expressões carregadas, cabisbaixos.
Recebi-os no gabinete com um bom humor que os surpreendeu:
- Por que vocês estão aqui ?
Ficaram desconcertados, alguns sorriram, outros
se abraçaram a mim, chorando.
A saída
O chefe do serviço de segurança ( coronel Darke Figueiredo)
ponderou ao seu superior imediato - o chefe do Gabinete Militar
- e logo o general Agenor trouxe a apreensão dos militares:
- Senhor Presidente, acho que seria mais seguro
sair do Palácio pela garagem, no subsolo. Continuam chegando
ônibus com manifestantes, que parecem muito agressivos, vão
fazer barulho.
Compreendi a preocupação, mas recusei:
- Eles não metem medo em ninguém,
general, eu os conheço. Vou sair pela porta da frente.
Não me seria possível, nem se o desejasse,
deixar o Palácio pela garagem. Na realidade, desde cedo,
ainda na adolescência vivida alí mesmo em Brasília,
havia aprendido lições inestimáveis de coragem
e destemor, que balizam o meu comportamento diante de ameaças
assim. Enfrentei sem hesitar, no braço e inutilmente ( porque
acabamos todos detidos), nos anos 60, os policiais que invadiram
a biblioteca da Universidade de Brasília ocupada por nós,
estudantes do Ciem ( o histórico Centro Integrado de Ensino
Médio) e da própria UnB, que protestavam contra o
acordo MEC-Usaid, assim como, mais tarde, desafiei os assassinos
de aluguel que quiseram intimidar minha candidatura ao Governo de
Alagoas e os intolerantes que tentaram barrar a nossa caminhada,
na campanha presidencial. Como Presidente do meu País, eu
não negaria à Nação as cenas da despedida,
ainda que carregada de emoção e melancolia. Nem deixaria
de enfrentar aqueles tolos que tentavam dar legitimidade a um ato
de força.
A história dos homens se escreve com palavras
vitoriosas, e se agora posso relembrar aqueles momentos com o distanciamento
do tempo, é porque a vitória, no final, seria minha.
Uma vitória contra todas as manobras engendradas e deflagradas
em praticamente todo o território nacional pelas mesmas forças
retrógradas que mantêm o Brasil neste anacronismo cruel,
cuja expressão mais perfeita é certamente a perversa
distribuição da renda. Foi com este estado de espírito
que observei, através da vidraça, as figuras tristes
de manifestantes que agiam como marionetes sem vontade própria,
massa de manobra fiéis à velha máxima de mudar
algo, qualquer coisa, para não mudar coisa alguma.
Dei instruções severas para evitar
repressão policial, à minha saída do Palácio:
-A intolerância é o desespero dos fracos.
Conhecia-os mesmo, como dissera quase sem perceber
ao general Agenor. Os que se aproximavam do Planalto, naquele momento,
tinham a mesma consistência invertebrada dos que enfrentamos
- e vencemos - na célebre campanha presidencial de 1989.
Recordei até com certa saudade daqueles tempos aquecidos
da campanha, quando adversários tentavam intimidar a minha
candidatura com violência física.
A campanha
Em
Niterói, bela cidade do Rio de Janeiro, nos bravos dias de
campanha, manifestantes ofegantes e suados, "em nome da democracia",
deram os braços para impedir a passagem de uma centena de
caminhantes que me seguiam os passos, em direção ao
clube Canto do Rio, para falar ao povo. Imaginavam que recuaríamos,
amedrontados. Continuamos caminhando no mesmo sentido, sem hesitar.
0 encontro - talvez o confronto - seria inevitável. Enquanto
caminhávamos, as agressões se sucediam. Como os gritos
eram inúteis, porque não nos faziam parar; iniciaram-se
as agressões físicas contra crianças e mulheres
que nos acompanhavam vestindo camisetas e portando bandeiras de
campanha. Um senhor de seus setenta e poucos anos foi obrigado a
ajoeIhar-se com violência, para que lhe arrancassem a camisa
collorida. Como numa batalha, defendíamos os nossos como
podíamos, enquanto a caravana seguia imparável, a
pé, para o confronto com aqueles que fechavam a rua adiante,
de braços dados. Segui à frente, disposto a enfrentá-los.
Logo atrás, soube depois, vinham apenas três assessores,
Luíz Amorim, Dário César, Claúdio Humberto,
este último atingido por uma pedrada que Ihe valeu sete pontos
no rosto. A menos de dois metros do choque, os valentões
romperam o "cordão", acorvadados, e passamos. Eles
perceberam que já não havia mais crianças,
mulheres e velhos a enfrentar.
E correram.
Gente
que só vê o que quer publicou uma fotografia minha,
nesse episódio, com punho cerrado e braço erguido
sustentando que se tratava de um gesto menos cordial, a popular
"banana". Ainda que fosse, teria sido uma reação
natural, mas o importonte é que a expressão no rosto
revelava a intenção de não me deixar intimidar.
A boca aberta indicava que eu gritava algo de que nem me lembro,
mas na certa teria sido um grito de guerra; do contrário,
estou certo de que não teríamos chegado ao clube.
Militantes
do atraso e de um fracasso muito próprio, manifestantes que
atiram pedras e tentam impedir a livre manifestação
não passam de gente que não pode mudar de idéia
e por isso não quer mudar de assunto. E gritam, xingam, ofendem,
como fanáticos que professam ódio irracional de quem
não possui opinião e recusa a novo, o nascimento do
futuro. Não sabem que a vioIência política é
cúmplice da incompetência e criatura do poder absoluto.
Às
9h35 concluí a mensagem que decidira divulgar agradecendo
à Nação, aos amigos e colaboradores, às
classes trabalhadoras e produtoras e a todos os setores políticos
- mesmo àqueles instalados entre os conspiradores, na oposição
e fora dela, estes últimos funcionalmente próximos,
bem próximos de mim - pela constante presença no processo
político. Devia esse gesto aos brasileiros.
Escrevi
sem qualquer sentimento de mágoa, com intenção
de falar ao coração do povo, assegurando-Ihe a convicção
- ingênua, hoje reconheço - de que logo emergiria a
verdade e todos os equívocos seriam desfeitos. Subestimei,
naquele momento, a ação dos que não pretendiam
provar coisa alguma, mas apenas tomar o poder, numa conspirata sem
voto ou vergonha, afastando quem se colocara contra os seus interesses.
Com
clareza e perseguindo um tom elegante, propriedades tão escassas
naqueles dias, procurei assegurar na mensagem que, em nenhum momento,
deslustrei a dignidade das funções que exercera, nem
me afastei, milímetro sequer, da missão de transformar
o País no exemplo de esforço para a conquista da modernidade
com compromisso social, a que me propunha desde o início
de tudo.
Considerei
útil recordar, no texto, que foram por mim determinadas as
averiguações, em todas as instâncias subordinadas
ao Presidente da República, que resultaram na aceitação
do pedido de impeachment, a começar pelo ofício que
encaminhei ao Ministério Público, chefiado pelo procurador
Aristides Junqueira, que havia sido por mim reconduzido ao posto.
Com esta nomeação, quis dar uma demonstração
de que nada tinha a temer, porque o chefe do Ministério Público,
por suas ações, já havia deixado bem claro
a sua má vontade em relação ao governo.
De
posse do ofício através do qual eu determinava rigorosas
investigações, o procurador geral cometeu inúmeras
violências, talvez do tamanho e da intensidade cometidas por
ele quando colaborava com a tortura de presos políticos durante
o regime militar.
Pouca gente sabe que Aristides Junqueira foi listado entre os torturadores
dos tempos da ditadura, nas páginas 192 e 193 do livro Brasil:
Nunca Mais, prefaciado pelo arcebispo de São Paulo (Dom Evaristo
Arns), que denuncia: "A aceitação, como elemento
de prova, de depoimentos colhidos em delegacias ou ambiente militar
[observação: pela tortura], que colidia com a tradição
jurídica brasileira, foi avalizada na época por um
ativo procurador da Justiça Militar, chamado Aristides Junqueira,
atual procurador-geral do Republica". Ali evidencia-se um viés
desconhecido do caráter do sestroso procurador Cuja aparência
soturna e reservada escondia, no fundo, a alma mutilada pela angústia
e a consciência pesada pelo suplício que infligiu às
suas vitímas. Suas ações contra mim pareciam
querer apagar da lembrança coletiva o sangue derramado e
a dor infinita gerada pela sua atitude no seio da família
brasileira.
Certamente,
do costume que carregou consigo desde aquela época, resultou
a tentativa de incriminar-me, movido muito mais pelo seu desejo
insaciável de apagar seu triste passado do que pelo eventual
apego à verdade e à Justiça.
O Golpe
Antes de sinalizar para que a porta de acesso ao salão ao
lado fosse finalmente aberta, chequei o último detalhe:
- Major,
o senador já chegou ? - perguntei ao eficiente Chefe da Ajudância
de Ordens ( Fernando Azevedo e Silva ) , que se fez amigo. Referia-me
ao primeiro secretário do Senado Federal (Dirceu Carneiro)
que chefiava a comissão de senadores designada para entregar-me
o comunicado oficial da abertura do processo de impeachment.
- Está
no corredor, Senhor Presidente, à espera de ser chamado para
a solenidade. "Solenidade". De fato a expresão
era adequada. Quis que fosse assim, um momento solene. Reafirmação
de civilidade. Recusei assinar em particular o "recibo"
da citação, como sugeriu o secretário-geral
da Presidência da República.
- A
Nação tem o direito e até o dever de testemunhar
esse ato de força, Marcos.
Os
brasileiros teriam a oportunidade de presenciar a culminância
de um golpe parlamentar inédito na nossa História.
Esse testemunho certamente seria valioso na compreensão futura
do episódio. Foram necessários dias de intensa negociação,
entre a votação de 29 de setembro e aquele 2 de outubro,
véspera das eleições municipais de 1992, para
que eu pudesse convencer a todos -especialmente os meus- da necessidade
de realizar uma transição adu1ta. O Brasil merecia.
Embora vítima de um movimento golpista, quem chega à
Presidência da República pela força do voto,
não tem o direito de sair do Palácio senão
pela porta da frente, com a cabeça erguida, e era exatamente
isso o que eu pretendia fazer.
O Clima
de tristeza
Jamais
repetiria o gesto de outros presidentes inconformados com o destino,
deixando o Palácio do Planalto pelas portas dos fundos. 0
último presidente militar por exemplo, o general João
Figueiredo, para não assistir ao júbilo do próprio
sucessor ( José Sarney), por quem não tinha o menor
respeito, cometeu o equívoco de abandonar o Palácio
pelos fundos. Senti-me obrigado a concordar que, no exercício
do poder, Figueiredo aprendera a avaliar bem as pessoas. 0 "
traidor oportunista ", que tanto indignara Figueiredo, cinco
anos, uma abafada CPI da Corrupção, dezenas de escândalos
e quase 100% de inflação mensal depois, temia sofrer
constrangimentos ao sair do Planalto. Devia ter lá suas razões,
mas em nome da concórdia optei por visitar o último
presidente sem voto da República, para ajudá-lo a
sair de um pesadelo que o atormentava havia meses. Autorizei providências
para uma visita minha ao Pericumã, onde se refugiara para
o carnaval daquele ano. Deixamos o "Bolo de Noiva"- prédio
que ocupamos entre janeiro e março de 1990, anexo ao Ministério
das Relações Exteriores - no domingo, em helicóptero
da FAB.
A visita
foi cordial e oproveitei a oportunidade para solicitar- Ihe a nomeação
do presidente do Banco Central no meu governo e decretar feriado
bancário necessário à adoção
do nosso plano econômico - no que fui prontamente atendido.
O cuidadoso
chefe do cerimonial (Embaixador Osmar Chohfi), à minha frente,
abriu a porta que separava o gabinete do salão ao lado e
anunciou:
- 0
Senhor Presidente da República.
0 ambiente,
ali, estava carregado, denso, consternado, com a presença
de alguns poucos amigos, entre os quais o senador Ney Maranhão,
sempre presente nos momentos mais difíceis, o senador Odacir
Soares, nem todos os ministros ( Estiveram ausentes ao último
ato os ministros Reinhold Stephanes, Antonio Cabrera, Pratini de
Morais, Adib Jatene e Affonso Camargo ), outros parlamentares, funcionários
dos quais me despedi antecipadamente e jornalistas, que saboreavam
o momento grave. Tudo parecia organizado segundo as minhas determinações.
Orientara ao Secretário de Imprensa a tomar providências
para permitir o acesso dos jornalistas e a transmissão direta
pelas emissoras de rádio e televisão. Decidi que a
contra-fé solene à citação do Senado
Federal deveria ser realizada no salão contíguo ao
gabinete presidencial, antes utilizado para reuniões ministeriais
e depois restrito a atos solenes, depois da construção
do conhecido "salão oval", no segundo andar do
Palácio. Com isso, pretendi registrar para a História
que o Presidente da República acatava com serenidade a decisão
do Parlamento e que, civilizadamente, recusou todas as tentações
para evitar aquele ato ou mesmo, antes, de fechar o Congresso Nacional,
como queriam alguns e como fizera um país vizinho com surpreendente
apoio popular.
Alegavam
os defensores desse ato de força que o Congresso era um enorme
balcão de negócios e que o povo apoiaria qualquer
iniciativa nesse sentido. "A Câmara dos Deputados é
presidida por um corrupto, é preciso denunciar isso ao País",
exemplificavam.
Um
ano depois, receberia a visita do cineasta Luiz Carlos Barreto.
Depois de conversarmos longamente sobre as circunstâncias
de minha saída do governo, o premiado produtor de O Quatrilho,
bem humorado, exclamou:
- 0
que este País precisa é de um ditador!
Inicialmente
não entendi aquela posição de alguém
a quem sempre considerei um combatente da Democracia. Mostrei o
meu espanto e logo ele se apressou em corrigir:
- Mas
eu sou um democrata!
- Então o que quis dizer com "ditador"?
- Um ditador eleito pelo voto popular. Alguém que fizesse
a sua campanha avisando na televisão: Se eleito Presidente
da República, vou fechar o Congresso.
Diante
da minha perplexidade, Luis Carlos Barreto, sempre divertido, concluiu:
- Se
o senhor fizesse uma campanha assim, seria eleito com uma votação
extraordinária !
Sempre
reagi à idéia com severidade. Aos mais impacientes
lembrei que a banda podre do Congresso seria desmascarada mais cedo
ou mais tarde. De fato, não demoraria muito. 0 escândalo
do 0rçamento, que logo se seguiu, revelaria alguns dos "anões
" que efetivamente saquearam a Nação e, entre
os acusados, encontravam-se os mesmos "virtuosos" que
me ofendiam em público, pediam benesses em particular e,
frustrados, atacavam o governo. Autoproclamado o "muso do impeachment
", responsável fundamental pela votação
viciada que resultou com a minha renúncia à Presidência
da República e pela violência cometida contra a Constituição,
o presidente da Câmara dos Deputados (Ibsen Pinheiro) estava
entre os corruptos mais notáveis, pilhados pela CPI do 0rçamento.
Suas contas bancárias confirmariam as denúncias que
levaram à cassação do seu mandato.
Como
uma Nação adulta, uma das mais desenvolvidas do mundo,
o Brasil não merecia regressar aos tempos em que o voto valia
menos que uma bala, por isso insisti numa transição
segundo as regras do jogo democrático. Nesse sentido, designei
uma comissão de transição sob a coordenação
do Ministro da Justiça ( Célio Borja ), a mais antiga
de todas as pastas. Alguns assessores e amigos, revoltados com aquela
conspiração, consideravam que o meu gesto apenas facilitaria
o trabalho dos traidores, que loteavam o futuro governo e compravam
votos com os recursos públicos, para vencer a batalha. Fiz-Ihes
ver que compartilhava aquele sentimento, mas o meu gesto era de
zelo pela administração do país:
- 0
Brasil não é uma republiqueta. Quer uma transição
decente.
A minha
certeza era a de que o povo brasileiro compreenderia mais tarde
que o meu governo caiu, porque não transigi nem permiti a
negociação de votos no Congresso. Jamais tive qualquer
sombra de dúvida do quanto contrariava as elites com atos
de governo, e foram elas - e não o povo - os responsáveis
maiores pela pantomima, cuja cena derradeira se desenrolava diante
das câmeras de todo o mundo, naquela manhã de outubro.
Notei,
curioso, o primeiro secretário do Senado Federal um tanto
trêmulo. Parecia muito compenetrado no papel a que se prestava.
0 governo seguinte o gratificaria regiamente, aliás, como
à maior parte dos senadores que me julgariam, com suspeita
pressa e evidente falta de isenção, dali a exatos
89 dias ( a renúncia e o julgamento ocorreram a 29 de dezembro
de 1992), embora o prazo fixado pela Constituição
fosse de 180 dias.
0 vice-presidente
(Itamar Franco), que retirei do ostracismo na política mineira,
organizou um governo a que chamou cinicamente de " republica
dos senadores" -recompensando com cargos e sinecuras exatamente
aquele que me julgariam mais tarde.
Causou-me
especial emoção a solidariedade que recebi do deputado
Ulysses Guimarães, naquele período duro de expectativa.
Dr. Ulysses me visitou e me privilegiou com conselhos muito utéis,
para enfrentar os dissabores que já não eram poucos
e que se agravariam dali em diante. Todo o tempo assegurou-me o
seu apoio - e o daqueles que o seguiram - afirmando que votaria
contra o impeachment.
Como
demonstração de seu afeto, presenteou-me com um dos
seus livros , no qual apôs solidária dedicatória.
0 seu comportamento mudaria quando se iniciaram as articulações
para garantir a tomada do poder, através de um golpe de mão.
Prometeram-lhe que o vice-presidente renunciaria logo após
a minha condenação pelo Senado e, assim, ocorrendo
a vacância do cargo, ele,Dr. Ulysses, finalmente cumpriria
o sonho de exercer a Presidência da República eleito
pelo Congresso, para cumprir o restante do meu mandato. Seu trágico
desaparecimento jogou uma pá-de-cal na operação.
A sentença
fora acertada fisiologicamente, enquanto a minha defesa era baseada
em fatos concretos, argumentos jurídicos, provas que prevaleceriam
no histórico julgamento do Supremo Tribunal Federal - que
me absolveria em 1994, dois anos depois do impeachment. A decisão
do Senado, "política", não poderia ser outra.
Percebi isso quando já era demasiado tarde. Renunciei ao
mandato, como última tentativa de impedir aquele grotesco
espetáculo, mas ainda assim realizaram o "julgamento".
0 objetivo era consumar o golpe e afastar-me da vida pública
como uma maneira de protegerem os seus escusos interesses, finalmente
vitoriosos.
Suspenderam
os meus direitos politicos por oito anos, exatamente como a ditadura
militar procedia com aqueles cuja ação política
temia. 0 governo que me substituiu e seus cúmplices mal escondiam
o temor pelo meu retorno, que sabiam inevitável, e por isso
- ilegalmente - "julgaram-me". Não poderiam fazê-lo,
porque apresentei a renúncia antes de a sessão ser
iniciada. A Constituição autoriza o Senado a proceder
o julgamento de Presidente da República e, com a renúncia,
eu já não ocupava o cargo e o substituto já
estava empossado. Adotou-se um rito previsto na lei 1079, de 1950,
que regulamentava artigo da Constituição de 1946 e
que evidentemente ja não vigoravam.
Cabeça
erguida e peito aberto
Os bigodes de sopa do trêmulo senador ( Dirceu Carneiro),
que lhe cobriam inteiramente a boca, mexeram de forma engraçada,
evidenciando que balbuciava. Muito tenso, ele falou baixo, tão
baixo que ninguém entendeu nada. A cerca de um metro de distância
confesso que me esforçei um pouco, mas só consegui
perceber os bigodes movimentados nervosamente. Considerei apropriado,
nas circunstâncias, responder qualquer coisa.
-Certamente
que sim - disse em tom educado.
No
dia seguinte, os jornais atribuíram ao senador uma frase
de efeito, que, a rigor, se a pronunciou não se fez entender.
"Desejo que este ato seja uma contribuição da
nossa geração para o aperfeiçoamento da democracia
no Brasil", teria dito. Olhei para o relógio, certificando-me
da hora exata. Sobre o documento que recebi do Senado, acrescentei
a hora, a data e assinei: "Eu, Fernando Affonso Collor de Mello,
recebi, nesta data, às 10h20m, a citação assinada
pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal e pela Mesa do Senado
Federal, instruída com documentos de fls. 1 a 927, que me
foi apresentada pelo Senador Dirceu Carneiro, na qualidade de primeiro
secretário, para responder pela prática de crimes
de responsabilidade, conforme acusação admitida pela
Câmara dos Deputados, anexa. Palácio do Planalto, 2/10/92".
Concluída
a solenidade, pretendia deixar a sede do governo o quanto antes.
Despedi-me de todos os presentes, um a um, num clima de grande emoção.
Fomos levados ao andar térreo, na saída reservada
às autoridades, de onde seguiríamos ao heliponto.
Atendendo minha determinação, a polícia não
reprimiu os manifestantes que invadiram a área lateral do
saguão do Palácio e ficaram a poucos metros de nós.
Deixamos o Palácio com as cabeças erguidas, caminhando
normalmente.
Com
a omissão - quase a discreta ajuda - do serviço de
segurança, os vociferantes militantes ficaram próximos.
Pude vê-los de muito perto. Carregavam a mesma expressão,
rostos crispados de ódio sem razão e da ira dos "valentões"
de tantas outras batalhas. Imaginavam que eu os temia. Durante o
percurso, encarei-os fixamente. Se os de Niterói desmancharam
o cordão e se acovardaram por trás de pedras e insultos,
os de Brasília emudeciam quando se surpreendiam com o meu
olhar direto, sem temor.
Em
meio àquela multidão havia também os que me
aplaudiam, como um cidadão humilde que me fitava emocionado.
Interrompi a caminhada, fui até ele, cumprimentei-o com um
forte aperto de mão, agradeci a sua coragem. Naquele precioso
instante, só por um instante, fez-se silêncio. Próximos
ao helicóptero encontramos os integrantes do Gabinete Militar
da Presidência da República em serviço - sempre
corretos e eficientes - em formação, prestando continência.
Aquela demonstração de lealdade me emocionou especialmente.
Eu
e Rosane ainda nos voltamos para um derradeiro aceno àqueles
que estiveram conosco até o último momento. Lembro
bem que esse grupo ( formado pelos senadores Áureo Mello,
Ney Maranhão, Odacir Soares, os deputados Humberto Souto,
Ivan Buriti, José Burnett, José Lourenço e
Paulo Octávio; Álvaro Mendonça, Lafaiete Coutinho,
Luiz Carlos Chavez e Luiz Estevão) levantou os braços,
formando a letra V com os dedos, gesto que repeti tantas vezes.
Como eu, eles ainda acreditavam no retorno depois de estabelecida
a verdade. Já a bordo, observando a manifestação
do alto, não sentia raiva ou frustração, mas
sim um profundo desapontamento. Pedi para sobrevoar os Ciac em construção
em Santa Maria e Samambaia, cidades satélites de gente boa
e simples, próximas a Brasília, e o do Paranoá,
onde inaugurei o programa de escola em tempo integral. Seria um
vôo de menos de dez minutos.
O comandante
recusou:
- Não
temos combustível.
Percebi
ali que o poder escapara mesmo de minhas mãos.
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